MEC Livros, Biblioteca de Osasco… mas, novamente, cadê o bibliotecário?
- Lucas Martins
- 29 de abr.
- 4 min de leitura
Atualizado: 10 de mai.
Feito pelo bibliotecário Lucas Martins - crb 6 - 3621
O Brasil voltou a falar de livros. Para quem vive a educação, isso soa como uma luz no fim do túnel, um raro sopro de esperança. Porém, ao mesmo tempo, vimos ganhar destaque um caso de descaso com a Biblioteca Pública Monteiro Lobato, em Osasco. Mas, mais uma vez, sem ouvir quem trabalha diretamente com eles.
Na verdade, alguma vez essas pessoas foram, de fato, ouvidas?

Imagem Feita com IA.
De um lado, o MEC Livros surge como uma iniciativa relevante ao ampliar o acesso digital à leitura, somando-se a outras ações públicas como o BiblioOn. De outro, o caso de Osasco expõe o extremo oposto, o descarte em massa de livros sem nenhum critério, falhas de gestão e a perda de patrimônio cultural e de memória. Dois movimentos distintos que, no entanto, revelam o mesmo vazio no debate público: a ausência do profissional bibliotecário.
No episódio de Osasco, vimos indignação, justificativas e disputa de narrativas, mas não houve espaço para o olhar técnico, e menos ainda para a pergunta essencial: como chegamos até aqui? Por que um acervo chega a esse ponto sem que ninguém tenha alertado antes? Por que uma biblioteca pública com tantos serviços que podem ser prestados para a sociedade fica fechada por tanto tempo? Pouco se discutiu sobre critérios de descarte, preservação ou recuperação, porque não há um profissional bibliotecário na linha de frente, e fica a sensação incômoda de que, no Brasil, o tema só ganha voz quando vira crise, quando vira manchete, ou quando, na linguagem midiatica VIRALIZA, deixando de lado as causas e tratando decisões complexas de forma superficial.
Já no caso do MEC Livros, o debate tem se concentrado no acesso, na tecnologia e na escala. Mas há uma dimensão fundamental que segue pouco explorada, a da mediação qualificada. Porque uma biblioteca digital não é apenas um repositório de arquivos.
Ela exige curadoria. Exige seleção criteriosa. Exige organização da informação. Exige gestão de acervo, exige projetos.
E tudo isso é, justamente, campo de atuação do bibliotecário.
Somos nós, bibliotecários que podem e devem garantir que o conteúdo disponibilizado seja relevante, diverso, bem classificado e acessível de forma inteligente ao usuário. Nós que estruturamos sistemas de busca eficientes, que pensam em políticas de desenvolvimento de coleções e que atuam como mediadores entre o leitor e a informação.
Ignorar isso é reduzir uma biblioteca, física ou digital, a um simples amontoado de livros, algo sem próposito.
Mas talvez a pergunta mais incômoda não seja dirigida apenas ao poder público. Ela também precisa ser feita para dentro da própria área.
Essa ausência é ainda mais contraditória quando olhamos para a própria história da profissão. Em visita ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, no Chile, um dos primeiros painéis destaca o papel de bibliotecários que arriscaram suas vidas para salvar livros e preservar acervos durante a censura da ditadura sangrenta chilena. Em contextos extremos, esses profissionais foram fundamentais para proteger a memória e o acesso à informação. Hoje, em tempos democráticos, sua ausência no debate público sobre bibliotecas no Brasil soa ainda mais difícil de justificar.
Onde está a reação da classe bibliotecária?
Diante de episódios como o de Osasco, e até mesmo de iniciativas como o MEC Livros, o silêncio não é apenas ausência. É também posicionamento.
Falta articulação. Falta presença pública. Falta ocupação de espaços, inclusive nas redes sociais, na imprensa e nos debates onde as decisões estão sendo moldadas.
Enquanto isso, outros falam por nós. Decidem por nós. E, muitas vezes, erram sem sequer serem questionados tecnicamente.
Não se trata apenas de reconhecimento profissional. Trata-se de responsabilidade. O problema não é apenas Osasco. O episódio escancara algo que há muito tempo permanece invisível: o apagamento do trabalho nas bibliotecas públicas e o desaparecimento silencioso de seus profissionais. Espaços que deveriam estar funcionando plenamente, com bibliotecários atuando algo, inclusive, garantido por lei, muitas vezes operam de forma precária ou sequer existem de fato. O mesmo se repete nas bibliotecas escolares, onde a presença do bibliotecário ainda é exceção, quando deveria ser regra.
Não se trata apenas de um caso isolado, mas de um sintoma de abandono estrutural que só ganha atenção quando vira crise.
Se a própria classe não se posiciona, não tensiona, não se faz visível, o resultado é previsível: a invisibilidade se perpetua, e com ela, decisões equivocadas continuam acontecendo.
O problema não é apenas Osasco.
E sabemos que, em silêncio, acontece em outras cidades.
O que esses episódios revelam não é apenas um conflito entre o físico e o digital. Revelam um país que ainda insiste em discutir bibliotecas sem colocar o bibliotecário no centro da conversa, e o pior que aceitamos isso calados.
E isso cobra um preço alto: de um lado, projetos que podem nascer sem todo o seu potencial; de outro, perdas que poderiam ser evitadas com planejamento técnico.
Não se trata de escolher entre físico ou digital. Trata-se de entender que ambos exigem gestão qualificada.
Porque, no fim, não é sobre o formato do livro.
É sobre quem está preparado para cuidar dele, e de tudo o que ele representa.
E essa responsabilidade não pode mais ser silenciosa, enquanto bibliotecas públicas, escolares... desaparecem, espaços são esvaziados e a presença do bibliotecário se torna cada vez mais rara.
É hora de os conselhos, as associações, os sindicatos (quando ainda existem e resistem), os cursos de Biblioteconomia, as escolas e, principalmente, os próprios bibliotecários ocuparem esse espaço. De falar, de tensionar, de aparecer, de usar as redes, a mídia e o debate público.
Vi reportagens sobre o tema, tanto envolvendo o MEC quanto o caso de Osasco , em nenhuma delas, apareceu a fala de bibliotecários ou de órgãos de classe. Não podemos continuar tão invisíveis assim. Mesmo com todo o “hype” gerado pela mídia, não soubemos aproveitar a oportunidade para nos posicionar publicamente e defender a profissão.
Inclusive, o próprio tripé das instituições profissionais (Conselhos, Associações e Sindicatos bibliotecários), hoje está fragilizado pela falta de união da nossa classe. E isso também é responsabilidade nossa, dos próprios bibliotecários, que muitas vezes nos afastamos das entidades, deixamos de participar dos debates coletivos e enfraquecemos a capacidade de mobilização da profissão.
Porque, se essa voz continuar ausente, outros continuarão decidindo por ela.
E o resultado… cá entre nós, já sabemos,
Lucas Martins




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